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A história do Parque
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Escrito por Lucas Farias Alves
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O presente volume surgiu como dissertação de graduação em antropologia, na Universidade de Brasília, com a orientação de Julio Cezar Melatti, a quem agradeço especialmente.
Mais de meia década depois de nossa pesquisa foi preciso rever e aprimorar o texto, a análise, no entanto, permanece relativa ao processo vivido à época do trabalho de campo. As transformações da sociedade local prosseguiram com relativa intensidade. Hoje, a região da Chapada dos Veadeiros é um dos pólos de desenvolvimento ecoturístico do Estado de Goiás. Onde quer que se ande encontram-se placas "oferecemos refeições", "camping" ou "aluga-se quartos", seja nas velhas casas de adobe ou em novas construções pertencentes às famílias da Vila São Jorge. A administração do Parque, empossada após a conclusão da pesquisa, atendeu iniciativas no sentido de instituir a atividade de condutor de visitantes, presença obrigatória nas trilhas do Parque - e mais uma fonte de renda para os moradores.
Faltam, entretanto, (1) um estatuto que defina responsabilidades inerentes à atividade de condutor, considerando que há riscos de acidentes graves; (2) uma política de visitação que ofereça ao turista um serviço regular, com garantias de lazer e educação e (3) um plano de manejo, ferramenta imperfeita - como procuramos demonstrar -, mas indispensável.
Os conflitos entre interesses particulares assumem, agora, um lugar de destaque. Simultaneamente o paradigma do ecoturismo começa a ganhar força no discurso político de alguns agentes, entendendo as formas da vida local como patrimônio a ser conservado. Modos de vida, como todos sabemos, estão em permanente mudança. O garimpo atualmente é memória. A despeito disso, as contradições entre Vila e Parque não diminuíram, apenas assumiram outros conteúdos. E isso indica que comunidades vizinhas à unidades de conservação sofrem um impacto duradouro, o qual merece o olhar antropológico.
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A história do Parque
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Escrito por Lucas Farias Alves
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O pensamento da sociedade brasileira passa no momento por uma inquietante reestruturação. O discurso laudatório da natureza, dos recursos fabulosos à vocação do grande país, indicava um caminho quase que espontâneo para o desenvolvimento. Nessa última década, no entanto, os problemas sociais emergiram assustadoramente no seio de uma população miserável e ansiosa por uma distribuição de renda que não veio. Percebemos então, que essa fonte "inesgotável" de riquezas, além de por si só não ter conseguido estender suas virtudes à sociedade, está ela mesma em um estado de degradação crescente. Ao discurso laudatório acrescenta-se agora o salvacionista, tão em evidência em nossa conjuntura política.
Estória de herói não funciona sem vilão. Nossa moral habituou-se a estigmatizar alguns grupos sociais, justificando-se assim da desordem social do país e, mais ainda, da própria inércia. Ao lado da retórica igualitária, componente da propalada democracia, o que aprendemos diariamente é conviver com a dura realidade do desemprego, da violência urbana, do racismo. Onde a própria reivindicação de direitos é mal vista, a desigualdade acaba sendo aceita como inevitável.
Esta dissertação de Antropologia trata de um desses grupos excluídos, os garimpeiros. Herberto de Sales, em 1955, já nos dizia que "o garimpeiro talvez seja o mais desfavorecido de todos os trabalhadores brasileiros". Exemplo privilegiado dessa nossa distorcida configuração moral, eles são vistos como os grandes responsáveis pela depredação da natureza no que tange à exploração mineral. Rudes e desqualificados, não conseguiriam mais reintegrar-se ao restante da sociedade. Os chamados cidadãos, entretanto, acompanham indiferentes a pilhagem comercial dos recursos naturais. Ignoram, ainda, a questão ideológica da supervalorização do mineral como bem econômico, objeto de luxo e status social, o que lhe dá preço, tornando o garimpo uma iniciativa viável.
A verdade é que o próprio Estado, atendendo interesses nacionais e estrangeiros, tem fomentado esse devastador ressurgimento da garimpagem no Brasil. Isso é bem ilustrado pelo governo Sarney, ao abrir em nome do Projeto Calha Norte, sem qualquer objetivo explícito, uma pista de pouso a cinquenta metros de uma aldeia Yanomami, na região de Paapiú (Roraima). Mudou-se o governante e a situação lá é a mesma. A despeito disso, a opinião pública enxerga tudo como consequência da desmedida ambição de anônimos garimpeiros. Gerôncio de Albuquerque, em uma outra introdução (1984), relaciona quais são os outros grupos envolvidos nessa nova "corrida do ouro":
Ministros, empresários, donos de garimpo, atravessadores, contrabandistas, arrivistas endinheirados e políticos oportunistas compõem a cruzada invasora. Na retaguarda, um exército de 300 mil homens desfigurados, foras-da-lei, tangidos pela fome e o desemprego, expulsos da terra, induzidos a buscar a única alternativa de trabalho e de vida que lhes resta: a ilusão, a sorte e o logro...
Os garimpeiros de quem falamos aqui vivem realidade bem diferente. Radicados na região da Chapada dos Veadeiros, ao norte de Goiás, para onde foram atraídos pela "fofoca" das jazidas de cristal, estão mais ligados à terra, porque são também agricultores. O quartzo hialino ou cristal de rocha, por ter um valor oscilante e limitado, divide com a roça e a criação o espaço produtivo. A exploração do mineral é realizada com técnicas artesanais, mobilizando poucas pessoas (principalmente velhos, mulheres e crianças) e contribuindo para a exígua economia familiar.
Esses herdeiros de estilos de vida geralmente pensados como distantes, o camponês e o garimpeiro, têm vivido transformações recentes e radicais. Não resistem a possibilidade de vender suas "posses" para alguns dos milhares de forasteiros que procuram a região e, ao mesmo tempo, vêm perdendo o seu acesso às áreas de garimpo, que antes, podiam ser usadas por todos.
Há três décadas a Vila São Jorge1 acordou, por decreto, dentro de um Parque Nacional. A partir daí, tornou-se cada vez mais controversa a situação fundiária da região. Pressões políticas, superposições de registros, conflitos entre posseiros e fazendeiros, garimpeiros e guardas florestais, fazem parte da história de uma unidade de conservação que nunca pôde cumprir qualquer objetivo, porque não tem o controle legal e definitivo da área.
Vítima de duas redelimitações que o deixaram dez vezes menor, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros espera ainda o resultado de uma nova ação de desapropiação impetrada pelo IBAMA, após o que poderá receber o imprescindível plano de manejo, com o estudo da sua relevância e as propostas de uso e preservação.
A Vila e o Parque agora são vizinhos. Porém, vizinhos muito próximos. Dá-se pela Vila o acesso de turistas aos principais pontos de visitação do Parque, este, por sua vez, guarda uma parte do universo simbólico e dos produtos da sobrevivência daqueles moradores. Essa intimidade específica, é ponto de partida para entender em um nível mais amplo, em que medida cultura e preservação ecológica condicionam-se, conflitam ou se complementam. É o que pretendemos nesse estudo de impacto cultural, traçamos um paralelo com o que denomina-se em antropologia de "avaliação de impactos sociais", relativa à projetos de desenvolvimento. A tentativa é de determinar a forma dessas inesperadas interferências em função de projetos de preservação (que têm implicado inclusive em relocalizações) e as respostas geradas pela comunidade-alvo.
Com este objetivo buscamos o conceito de conservação e o conteúdo da questão cultural do ponto de vista de ecólogos e ecologistas. Para tanto recorremos aos planos de
1. Município de Alto Paraíso - GO.
manejo de alguns parques nacionais brasileiros, a artigos de impressos diversos, entrevistas e outros estudos. Procuramos retirar do próprio universo dos grupos envolvidos as soluções apresentadas para um entendimento possível entre cultura e ecologia.
Para falar da cultura local realizamos o trabalho de campo somado a quase dois anos de convivência, iniciada quando um grupo de estudantes de antropologia decidiu ver o mundo mais de perto. Todo o diálogo foi possível com entusiasmo e sensibilidade: saber querer ouvir. Descobri garimpeiros que amam o cerrado e sobre ele tem muito o que ensinar. Descobri também a magia de um lugar, que no imaginário esotérico-místico- religioso da região, será aquele onde surgirá uma nova civilização, esta, talvez, em harmonia com a natureza.
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A história do Parque
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Escrito por Lucas Farias Alves
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São Jorge, o santo guerreiro, é no candomblé da Bahia o orixá da caça, Oxossi. Chama-se sincretismo, a relação que se deu entre elementos religiosos de tradições culturais diferentes. Oxossi é um orixá, um ancestral lendário cultuado pelos iorubá, africanos que vieram principalmente da Nigéria. São Jorge é um santo, personagem mítico do catolicismo, veio da Europa com os portugueses. São origens da religiosidade brasileira associadas desde a escravidão. Na Vila São Jorge não existe culto afro-brasileiro, o autor é que recorre ao que sugere o imaginário mítico para contar a sua história. Muitos dos migrantes que povoaram a região dos garimpos da Chapada dos Veadeiros vieram da Bahia. Essa é a origem da maioria daqueles que lá permaneceram e criaram os filhos, os primeiros nativos. Eles saíram de Barreiras, Angical, Seabra, Rio Branco, Macaúbas, Santa Maria da Vitória, entre outras cidades do sertão, em busca dos garimpos; revivendo neste século a história da ocupação de Goiás do século XVIII. Revelavam assim aquilo que melhor caracteriza o garimpeiro, uma incansável disposição de ir em busca de um futuro incerto, mesmo que para isso tivessem que abandonar tudo. Caçadores assim como Oxossi. Na língua popular, em Goiás especialmente, quem caça, procura, persegue obstinadamente. A viagem de Zé Raimundo, morador, baiano de Itapicuru, mostra esse ímpeto aventureiro, caráter de todo garimpeiro. Ele decidiu vir no mesmo dia que soube do garimpo da Chapada. Chamou um amigo e empreendeu viagem de oitenta léguas a pé (560 quilômetros), segundo conta. Parou em Barreiras onde estabeleceu roça de algodão. Quando ouviu outro cochicho sobre o cristal largou tudo: "não quero nada com o certo, dá minha parte que eu vou embora". Quem caça arrisca e Oxossi, caçador de uma flecha só, teve uma única chance de tornar-se imortal, matando o grande pássaro que atrapalhava a Festa dos Inhames do Reino de Ifé (Verger, l987).
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A história do Parque
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Escrito por Lucas Farias Alves
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O padre Beno Bakermans, holandês, desde l958 na Chapada, conta-nos que os garimpeiros arranjaram uma imagem de São Jorge e por iniciativa de Severiano da Silva Pires batizou-se com este nome a localidade, que antes, e até hoje na palavra de alguns, era simplesmente a Baixa. Esta mudança encontra-se no livro de registros da paróquia, pela primeira vez, no ano de l954. Escolhido protetor dos garimpeiros da Chapada, São Jorge foi "cassado" em 1969: a festa do seu dia, 23 de abril, deixou de ser obrigatória no culto católico. Apesar disso, ele não deixou de ser um dos santos mais festejados pelo povo brasileiro. Por uma estranha ironia tornou-se o santo também um excluído, sem privilégios institucionais, da mesma forma que um garimpeiro. 9 Ao povo e ao santo, entretanto, o status pouco importa, unidos pela história celebram-se um ao outro. Na Festa de Abril, homenagem a São Jorge, a maior comemoração do povoado, ambos reafirmam a sua dignidade enquanto resgatam sua identidade. Em muitas músicas cantado, saudado em prosa e verso, São Jorge está no folclore brasileiro. Qual o brasileiro, olhando para a lua cheia , não procurou vê-lo, "sempre firme sobre o cavalo", com o dragão aos seus pés ?
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