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A história do Parque
Vila São Jorge e Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros  E-mail
A história do Parque
Escrito por Lucas Farias Alves   

SÉRIE ANTROPOLOGIA

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 VILA SÃO JORGE & PARQUE NACIONAL DA CHAPADA DOS VEADEIROS: O IMPACTO CULTURAL DE UM PROJETO ECOLÓGICO

 Alex Ricardo Medeiros da Silveira

A Fernando Mandarinoe Josemi Alves dois amigos sorridentes, solidários, musicais, eternos companheiros da Chapada.

Brasília

1997

 
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A história do Parque
Escrito por Lucas Farias Alves   

O presente volume surgiu como dissertação de graduação em antropologia, na Universidade  de  Brasília, com a orientação de Julio Cezar Melatti, a quem agradeço especialmente.

Mais de meia década depois de nossa pesquisa foi preciso rever e aprimorar o texto, a análise, no entanto, permanece relativa ao processo vivido à época do trabalho de campo. As transformações da  sociedade local prosseguiram com relativa intensidade. Hoje, a região da Chapada dos Veadeiros é um  dos pólos de desenvolvimento ecoturístico do Estado de Goiás. Onde quer que se ande encontram-se  placas "oferecemos refeições", "camping" ou "aluga-se quartos", seja nas velhas casas de adobe ou em novas construções pertencentes às famílias da Vila São Jorge. A administração do Parque, empossada após a conclusão da pesquisa, atendeu iniciativas no sentido de instituir a atividade de condutor de visitantes, presença obrigatória nas trilhas do Parque - e mais uma fonte de renda para os moradores.

Faltam,  entretanto,  (1)  um  estatuto  que  defina  responsabilidades  inerentes  à atividade de condutor, considerando que há riscos de acidentes graves; (2) uma política de visitação que ofereça ao turista um serviço regular, com garantias de lazer e educação e (3) um  plano  de  manejo,  ferramenta  imperfeita  -  como  procuramos  demonstrar  -,  mas indispensável.

Os conflitos entre interesses particulares assumem, agora, um lugar de destaque. Simultaneamente o paradigma do ecoturismo começa a ganhar força no discurso político de alguns agentes,  entendendo as formas da vida local como patrimônio a ser conservado. Modos  de  vida,  como  todos  sabemos,  estão  em  permanente  mudança.  O  garimpo atualmente  é  memória.  A  despeito  disso,  as  contradições  entre  Vila  e  Parque  não diminuíram, apenas assumiram outros conteúdos. E isso indica que comunidades vizinhas à unidades  de  conservação  sofrem  um  impacto  duradouro,  o  qual  merece  o   olhar antropológico.

 
INTRODUÇÃO  E-mail
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Escrito por Lucas Farias Alves   

O pensamento da sociedade brasileira passa no momento por uma inquietante reestruturação.  O discurso laudatório da natureza, dos recursos fabulosos à vocação do grande país, indicava um caminho quase que espontâneo para o desenvolvimento. Nessa última década, no entanto, os problemas sociais emergiram assustadoramente no seio de uma  população  miserável  e  ansiosa  por  uma  distribuição  de  renda  que  não  veio. Percebemos então, que essa fonte "inesgotável" de riquezas, além  de por si só não ter conseguido  estender  suas  virtudes  à  sociedade,  está  ela  mesma  em  um  estado  de degradação crescente. Ao discurso laudatório acrescenta-se agora o salvacionista, tão em evidência em nossa conjuntura política.

Estória de herói não funciona sem vilão. Nossa moral habituou-se a estigmatizar alguns grupos sociais, justificando-se assim da desordem social do país e, mais ainda, da própria inércia. Ao lado da retórica igualitária, componente da propalada democracia, o que aprendemos diariamente é conviver com a  dura realidade do desemprego, da violência urbana, do racismo. Onde a própria reivindicação de direitos é mal vista, a desigualdade acaba sendo aceita como inevitável.

Esta  dissertação  de  Antropologia  trata  de  um  desses  grupos  excluídos,  os garimpeiros. Herberto de Sales, em 1955, já nos dizia que "o garimpeiro talvez seja o mais desfavorecido de todos os  trabalhadores brasileiros". Exemplo privilegiado dessa nossa distorcida  configuração  moral,  eles  são   vistos  como  os  grandes  responsáveis  pela depredação da natureza no que tange à exploração mineral. Rudes e desqualificados, não conseguiriam  mais  reintegrar-se  ao  restante  da  sociedade.  Os   chamados   cidadãos, entretanto, acompanham indiferentes a pilhagem comercial dos recursos naturais. Ignoram, ainda, a questão ideológica da supervalorização do mineral como bem econômico, objeto de luxo e status social, o que lhe dá preço, tornando o garimpo uma iniciativa viável.

A verdade é que o próprio Estado, atendendo interesses nacionais e estrangeiros, tem fomentado  esse  devastador  ressurgimento  da  garimpagem no  Brasil.  Isso  é  bem ilustrado pelo governo Sarney, ao abrir em nome do Projeto Calha Norte, sem qualquer objetivo explícito, uma pista de pouso a cinquenta metros de uma aldeia Yanomami, na região de Paapiú (Roraima). Mudou-se o governante e a situação lá é a mesma. A despeito disso, a opinião pública enxerga tudo como consequência  da  desmedida  ambição  de anônimos  garimpeiros.  Gerôncio  de  Albuquerque,  em  uma  outra  introdução  (1984), relaciona quais são os outros grupos envolvidos nessa nova "corrida do ouro":

Ministros, empresários, donos de garimpo, atravessadores, contrabandistas, arrivistas   endinheirados  e  políticos  oportunistas  compõem  a  cruzada invasora. Na retaguarda,  um exército de 300 mil homens desfigurados, foras-da-lei,  tangidos  pela  fome  e  o   desemprego,  expulsos  da  terra, induzidos a buscar a única alternativa de trabalho e de vida que lhes resta: a ilusão, a sorte e o logro...

Os garimpeiros de quem falamos aqui vivem realidade bem diferente. Radicados na região da  Chapada dos Veadeiros, ao norte de Goiás, para onde foram atraídos pela "fofoca" das jazidas de cristal, estão mais ligados à terra, porque são também agricultores. O quartzo hialino ou cristal de rocha, por ter um valor oscilante e limitado, divide com a roça e a criação o espaço produtivo. A exploração do  mineral é realizada com técnicas artesanais, mobilizando poucas pessoas (principalmente velhos,  mulheres  e crianças) e contribuindo para a exígua economia familiar.

Esses herdeiros de estilos de vida geralmente pensados como distantes, o camponês e o garimpeiro, têm vivido transformações recentes e radicais. Não resistem a possibilidade de vender suas "posses" para alguns dos milhares de forasteiros que procuram a região e, ao mesmo tempo, vêm perdendo o  seu acesso às áreas de garimpo, que antes, podiam ser usadas por todos.

Há três décadas a Vila São Jorge1   acordou, por decreto, dentro de um Parque Nacional. A partir daí, tornou-se cada vez mais controversa a situação fundiária da região. Pressões  políticas,  superposições  de  registros,  conflitos  entre  posseiros  e  fazendeiros, garimpeiros e guardas florestais, fazem parte da história de uma unidade de conservação que nunca pôde cumprir qualquer objetivo, porque não tem o controle legal e definitivo da área.

Vítima de duas redelimitações que o deixaram dez vezes menor, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros espera ainda o resultado de uma nova ação de desapropiação impetrada pelo IBAMA, após o que poderá receber o imprescindível plano de manejo, com o estudo da sua relevância e as propostas de uso e preservação.

A Vila e o Parque agora são vizinhos. Porém, vizinhos muito próximos. Dá-se pela Vila o acesso de turistas aos principais pontos de visitação do Parque, este, por sua vez, guarda  uma  parte  do  universo  simbólico  e  dos  produtos  da  sobrevivência  daqueles moradores. Essa intimidade específica, é ponto de partida para entender em um nível mais amplo, em que medida cultura e preservação ecológica condicionam-se, conflitam ou se complementam. É o que pretendemos nesse estudo de impacto  cultural,  traçamos um paralelo com o que denomina-se em antropologia de "avaliação de impactos  sociais", relativa  à  projetos  de  desenvolvimento.  A  tentativa  é  de  determinar  a  forma  dessas inesperadas  interferências  em  função  de  projetos  de  preservação  (que  têm  implicado inclusive em relocalizações) e as respostas geradas pela comunidade-alvo.

Com este objetivo buscamos o conceito de conservação e o conteúdo da questão cultural do ponto de vista de ecólogos e ecologistas. Para tanto recorremos aos planos de

1. Município de Alto Paraíso - GO.

manejo de alguns parques nacionais brasileiros, a artigos de impressos diversos, entrevistas e outros estudos. Procuramos retirar do próprio universo dos grupos envolvidos as soluções apresentadas para um entendimento possível entre cultura e ecologia.

Para falar da cultura local realizamos o trabalho de campo somado a quase dois anos de convivência, iniciada quando um grupo de estudantes de antropologia decidiu ver o mundo mais de perto.  Todo o diálogo foi possível com entusiasmo e sensibilidade: saber querer ouvir. Descobri garimpeiros que  amam o cerrado e sobre ele tem muito o que ensinar. Descobri também a magia de um lugar, que no  imaginário esotérico-místico- religioso  da  região,  será  aquele  onde  surgirá  uma  nova  civilização,  esta,  talvez,  em harmonia com a natureza.

 
VILA E PARQUE  E-mail
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Escrito por Lucas Farias Alves   
São Jorge, o santo guerreiro, é no candomblé da Bahia o orixá da caça, Oxossi.
Chama-se sincretismo, a relação que se deu entre elementos religiosos de tradições
culturais diferentes. Oxossi é um orixá, um ancestral lendário cultuado pelos iorubá,
africanos que vieram principalmente da Nigéria. São Jorge é um santo, personagem mítico
do catolicismo, veio da Europa com os portugueses. São origens da religiosidade brasileira
associadas desde a escravidão.
Na Vila São Jorge não existe culto afro-brasileiro, o autor é que recorre ao que
sugere o imaginário mítico para contar a sua história. Muitos dos migrantes que povoaram
a região dos garimpos da Chapada dos Veadeiros vieram da Bahia. Essa é a origem da
maioria daqueles que lá permaneceram e criaram os filhos, os primeiros nativos. Eles
saíram de Barreiras, Angical, Seabra, Rio Branco, Macaúbas, Santa Maria da Vitória, entre
outras cidades do sertão, em busca dos garimpos; revivendo neste século a história da
ocupação de Goiás do século XVIII.
Revelavam assim aquilo que melhor caracteriza o garimpeiro, uma incansável
disposição de ir em busca de um futuro incerto, mesmo que para isso tivessem que
abandonar tudo. Caçadores assim como Oxossi. Na língua popular, em Goiás
especialmente, quem caça, procura, persegue obstinadamente.
A viagem de Zé Raimundo, morador, baiano de Itapicuru, mostra esse ímpeto
aventureiro, caráter de todo garimpeiro. Ele decidiu vir no mesmo dia que soube do
garimpo da Chapada. Chamou um amigo e empreendeu viagem de oitenta léguas a pé (560
quilômetros), segundo conta. Parou em Barreiras onde estabeleceu roça de algodão.
Quando ouviu outro cochicho sobre o cristal largou tudo: "não quero nada com o certo, dá
minha parte que eu vou embora".
Quem caça arrisca e Oxossi, caçador de uma flecha só, teve uma única chance de
tornar-se imortal, matando o grande pássaro que atrapalhava a Festa dos Inhames do Reino
de Ifé (Verger, l987).
 
São Jorge, o padroeiro  E-mail
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Escrito por Lucas Farias Alves   
O padre Beno Bakermans, holandês, desde l958 na Chapada, conta-nos que os
garimpeiros arranjaram uma imagem de São Jorge e por iniciativa de Severiano da Silva
Pires batizou-se com este nome a localidade, que antes, e até hoje na palavra de alguns, era
simplesmente a Baixa. Esta mudança encontra-se no livro de registros da paróquia, pela
primeira vez, no ano de l954.
Escolhido protetor dos garimpeiros da Chapada, São Jorge foi "cassado" em 1969:
a festa do seu dia, 23 de abril, deixou de ser obrigatória no culto católico. Apesar disso, ele
não deixou de ser um dos santos mais festejados pelo povo brasileiro. Por uma estranha
ironia tornou-se o santo também um excluído, sem privilégios institucionais, da mesma
forma que um garimpeiro.
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Ao povo e ao santo, entretanto, o status pouco importa, unidos pela história
celebram-se um ao outro. Na Festa de Abril, homenagem a São Jorge, a maior
comemoração do povoado, ambos reafirmam a sua dignidade enquanto resgatam sua
identidade. Em muitas músicas cantado, saudado em prosa e verso, São Jorge está no
folclore brasileiro. Qual o brasileiro, olhando para a lua cheia , não procurou vê-lo, "sempre
firme sobre o cavalo", com o dragão aos seus pés ?
 
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